Uma breve digressão

De forma inesperada, volto mentalmente ao segundo semestre de 1989. Eu tinha apenas cinco anos, mas, lembro nitidamente daqueles acontecimentos únicos. Não sei até que ponto aquilo contribuiu para o meu gosto musical, literário e “animestico”. Fato é que, já naqueles dias quentes na capital pernambucana, de maneira extremamente natural, eu estava sendo iniciado na música clássica. Não recordo, é claro, quais concertos e músicos mais me agradavam. Meu pai, responsável mor por esse limiar musical, fazia questão de realçar a preferência por Vivaldi: Jesus, alegria dos homens, dizia ele – é o que há de mais belo na música. Penso que, desde essa época, eu já despertava meu fascínio pelo tom de Mi menor (Em); não sei ao certo por que, mas, ainda no início da minha infância, o som dessa tríade me deixa extasiado. Pude reparar de um jeito ainda mais sensato, depois de decorridos 16 anos, que o Mi menor possui certo romantismo doentio... Confesso que mesmo aos 21, às vezes, gasto tempo com a guitarra na mão, tocando apenas o surreal acorde... médio na quinta na corda, anular na quarta corda... Chego a delirar com esse som.
E nos idos de 1989, alguém me levava para a praia de Boa Viagem. Defronte ao calçadão, eu me sentia extremamente bem com aquele ar de grande metrópole; me agradava os arranha-céus, a velocidade com que a cidade corria, os ônibus elétricos, o movimento incessante em torno do Recife Palace. Sem abdicar do folclore epistemológico do centro da cidade, eu simplesmente amava aquela parte laboriosa da capital pernambucana. Já detestava praia, porém, fazia questão de pisar na areia, ou entrar no mar, com o único objetivo de observar a parte mais desenvolvida do Norte-Nordeste. Vale ressaltar, por força do hábito, que na década de 1980 ainda não havia tubarões no litoral pernambucano; sinceramente, penso que seria mais romântico se houvesse. Enfim, deixo isso de lado... digressão dentro de digressão não é muito interessante.
Eu ouvia aquele canto sem compreender o que ele dizia; me parecia bastante ininteligível. De qualquer forma, eu me sentia bem ao ouvir aquilo...
Vamo se imbolá e hablá por la terra
Vamo embora, rei do rock
Falo em alemão, falo em japonês
Eu sô iorôpeu... eu vim lá de Parise
Necessitei de aproximados 6 anos (e de pelo menos duas coletâneas dos titãs) para entender o que aquele velho simpático e sua companheira, aparentemente fatigada, diziam naquela cantiga. Na verdade, isso nem importa. O que mais me agradava naquilo tudo era a melodia inusitada e o som da rabeca da senhora Quitéria. Confesso, envergonhadamente, que até os 12 anos de idade eu achei que aquilo era um violino, muito embora desconfiasse da autenticidade do som.
Ah, digressões... graças ao antigo cais, Mauro e Quitéria desenrolaram-se pro lado das cantigas. E dentre os fascinados por aquilo, nos idos de 1989, lembro-me, dentre outros, do senhor Francisco Buarque de Hollanda (e a empolgação de meu pai ao comentar sobre ele), do esquelético senador Marco Maciel, dos 8 Titãs (e mais algumas mulheres que os rodeavam) e, acima de tudo, do pequeníssimo e íntimo Marcílio Garcia. Mesmo sem ter a noção exata do que se passava, eu contemplava tudo aquilo, um pouco feliz e um bocado atônito. De qualquer modo, eu me contentava... Penso que até os cinco anos de idade nada chegava a aborrecer ou magoar.
Ademais, fico indeciso entre me arrepender de estar vivo ou me arrepender de ver o tempo passar. Não, nesta cabeça confusa não há espaço para arrependimento(s); tamanha covardia pode e deve ser deixada para os momentos em que a coragem estiver nos estertores.
De resto, silêncio...
“Aun que me custe el corazon”
...


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