jueves, septiembre 14, 2006

Quando o lodo vira flor (e vice-versa)


Retornemos ao relato dos fatos. Acontecimentos desconexos (ou não), que trazem em si as marcas e mágoas de um horizonte confuso. Palavras e sentidos extenuados, capazes de causar angustia e dor aos que lêem e, mais ainda, ao que escreve.

- Mas, você não havia dito que este espaço jamais seria dedicado ao relato do(s) dia(s) de uma mente estúpida? Pergunta algum incauto.
- Sim, eu tinha dito - Responde este estúpido que vos escreve – No entanto, mudei de idéia. Quem disse que devo manter coerência no que falo e escrevo? Quem disse que não posso cair em contradição? (a contradição, diga-se de passagem, é uma das maiores venturas deste “homem” que aqui escreve) Por quê deveria eu manter uma resolução antiga, mesmo tendo vontade de fazer o oposto? Ha Ha Ha Ha...Se queres mesmo saber a verdade, direi: aquilo que você acha ou deixa de achar ao meu respeito, não significa absolutamente nada para mim. Não faz a mínima diferença se estás satisfeito ou não, se estás feliz ou triste, se choras ou cantas. Pouco me importa se sua vida corre normalmente ou se seu cadáver está apodrecendo no chão, junto à lama escura da tua podre massa encefálica, misturando-se à podridão do teu sangue a escorrer, para coroar a insignificância do teu apodrecimento final. Portanto, incauto, não mais dirija as tuas insignificantes palavras a este “homem” insignificante que está a escrever.

Feitas as ressalvas, voltemos ao relato...

Antes disso, continuo a me questionar sobre o sentido de tudo; sobre os motivos que nos levam a dar tamanha importância a esse acontecimento fugaz chamado vida. Perco minutos, horas, dias, noites tentando encontrar qualquer resposta, por menor que seja, capaz de aliviar uma fração da minha angústia. Qual é o sentido de estar vivo? Qual o sentido de não viver? Qual o sentido de sentir-se fatigado? Qual o sentido de buscar um sentido? Qual o sentido de não mais querer algum sentido? Qual o sentido dos sentidos? Será que sentido(s) realmente existe(m)?

É mais do que óbvio que eu não tenho a mínima idéia de como responder essas indagações. Porem, José Carrera Fernandez costuma dizer que só os gênios percebem o óbvio. Nesse exato momento eu percebi um óbvio; seria eu um gênio? Não, claro que não. Ou, talvez, sim. Talvez eu fosse o gênio: o gênio do escárnio, da humilhação, do egoísmo, da intransigência...O gênio do meu insignificante mundo...O gênio do caldo amarelado e fedorento que rodeia o lixo...e que me rodeia por conseqüência. Bravo! Bravo! Eu sou um gênio! Nunca me senti tão repleto de orgulho. Vivas! Vivas!



...



Hoje eu caminhei; meus tênis (que não combinam com o cinto) pisaram em alguns diferentes lugares. Respirei o ar de diferentes espaços em diferentes intervalos de tempo. Conseqüentemente, vi diferentes pessoas. Sim, diferenças existem dentro de uma mesma cidade; nem todos são iguais. Nós, humanos, somos (quase) sempre variações de um mesmo tema, porem, sem manter uma exata igualdade.

E entre pessoas e mais pessoas, percepções e mais percepções, duas figuras específicas me despertaram maior ‘interesse’...

A primeira delas, uma elegante mulher, na aparência dos seus 25 anos (ou seriam 26? Ou 27? Tanto faz, a idade não importa). Ao esbanjar a sua presença (que, cá pra nós, não era lá grande coisa), aquela mulher conseguiu atrair um pouco da atenção dos que estavam por perto; e eu era um desses “contemplados”...Pude assim perceber que ela possuía certo conhecimento da literatura latino-americana e hispânica, sobretudo, quando se falou no “Libro de las perguntas” (e qual não foi meu espanto ao falarem, de imediato, nos supostos castigos impostos a Hitler no inferno, como questionou o poeta Neftaly Reyes)...Até a literatura norte-americana dos meados do século XX foi trazida à tona (não pude deixar de fazer minhas intertextualidades gessingerianas).

Em suma, uma típica mulher bonita, inteligente e independente, deveras requisitada pela grande maioria dos homens bonitos, inteligentes e elegantes, que, por sua vez, são sempre requisitados e favorecidos por esse tipo de mulher. Um ciclo...vicioso talvez...Esse é o maquinário de uma sociedade exigente e cheia de requisitos; quem os atende, estará devidamente inserido no contexto e poderá desfrutar de uma vida cheia de sentido (caso encontrem algum); do contrário, sobrará desonra e desdém. Se queres vida em sociedade, atenda aos requisitos.

A segunda figura dessa minha inútil observação é um pouco mais singular, inusitada, rara. Uma figura mais do que atípica e (forçosamente) desconhecida pelos(as) bonitos(as), independentes e elegantes. Um mendigo...Ou não...Claro que não...Mendigos resistem às enfermidades, mendigos são beneficiados pelos bondosos e altruístas. A pessoa em questão (talvez seja benevolência minha classificá-la como ser humano) encontrava-se numa situação muito abaixo da realidade mendicante. As feridas na perna, cujos pés mostravam claros sinais de degradação, o braço esquerdo sem metade da mão, o tumor na face, cujo diâmetro equivalia ao de uma laranja madura, a cegueira do olho direito, o pus que escorria pelas pálpebras e os restos de trapos que vestiam parte do seu corpo, produziam um apelo visual no mínimo diferente...Talvez seja essa a grande semelhança entre este ser e a mulher que entendia de literatura. Aquilo também atraiu a atenção dos que estavam próximos; e eu era, mais uma vez, “contemplado” a interagir com a figura central. Interação mais curta, sem nenhuma palavra; interação que se resumiu em catar a única moeda existente no meu bolso direito (a saber, uma moeda de vinte e cinco centavos de real) e entregá-la ao pobre diabo que mal tinha voz para agradecer a nobreza do meu gesto filantrópico. Nossa! Além de gênio, eu sou bondoso! Dei moeda a um cadáver ambulante e por isso mereço o respeito de todos (até das pessoas elegantes, talvez)...Estou cada vez mais orgulhoso de mim. Vivas! Vivas!

Ao afastar do individuo, as pessoas no ponto de ônibus (algumas até assustadas com o que viram), voltavam a se perder nos assuntos cotidianos, fazendo com que aquela cena caísse nas valas do esquecimento e a presença daquele ser fosse apenas um acontecimento passado e distante; obviamente (Gênios!), isso jamais corresponderia à sua/nossa realidade...Outro sentido foi encontrado e os requisitos já eram bastante subjetivos.

Por fim, me coube fazer um paralelo entre as duas figuras com as quais interagi. Um paralelo que inevitavelmente levou a um cruzamento dos fatos e percepções, culminando com as fatídicas (e costumeiras) conclusões a respeito de tudo e de nada em especifico.

O que aquela mulher tem de melhor que aquele sub-mendigo?
A elegância dela seria, de fato, superior ao deplorável estado em que o outro se encontrava?
Existiria realmente um abismo entre os requisitos que ela atendia (e exigia) e a total falta de vida dele?
Em vida e em morte, seriam eles eternamente antagônicos?

Confesso que esses e outros questionamentos povoaram minha mente por algum tempo. Eu buscava de maneira incessante um elo entre os dois acontecimentos e seus dois respectivos protagonistas. E no meio desses questionamentos, pude perceber que talvez não existissem grandes dessemelhanças entre eles; talvez, a dicotomia aparente fosse apenas ilusão, e no final das contas eles não seriam tão opostos assim.

De qualquer forma, pude perceber que a imundice do segundo personagem era, no mínimo, menos egoísta que a exuberância da primeira. O tumor da face pareceu-me mais sincero e menos teatral que as palavras meticulosamente usadas pela mulher. O pus que escorria das pálpebras trazia em si as marcas de um sofrimento acumulado e sacrificante, porem, sincero. Talvez o pobre diabo nunca tenha conseguido qualquer forma de inserção nessa tal sociedade; no entanto, demonstrava, através da sua aparência e dos seus gestos, uma sinceridade imensurável e um apelo mais forte do que a maior força obtida pela desenvoltura da mulher. Mesmo sem produzir nada de afetuoso, mesmo sem ter a mínima dignidade, mesmo sem possuir qualquer condição de (sobre)viver ao seu/meu/nosso lado, aquela figura tinha uma certa nobreza. Mesmo sem combinar a cor dos trapos (muito embora, os restos de chinelo que cobriam parte dos pés tivessem a mesma cor do pedaço de pano que envolvia o resto da mão carcomida), mesmo sem produzir saudades em ninguém, mesmo sem ter o poder de tirar alguém da realidade e causar inveja a alguma mulher incrível, aquele ente humilhado possuía um brilho impar, o qual eu não consegui, e nem consigo, traduzir através de palavras.

Ao terminar a tal análise, deploravelmente, percebi ainda que o meu estado era mais lastimável que o do sub-mendigo (por sua vez, menos lastimável que o da mulher elegante...ou não). Percebi que minha situação talvez fosse mais alarmante que a de qualquer uma das figuras que eu tive contato. Eu vivo num eterno meio termo: não possuo a desenvoltura e a elegância exigidas pelos requisitos, muito menos a abdicação de tudo quanto é valor, como (inconscientemente) o faz o segundo personagem. Não sou capaz de fazer ninguém sair da realidade e sentir inveja de mim, nem tampouco dissipar um brilho impar, desligado de qualquer regra, como também o faz o protagonista do segundo ato. Não desperto saudades nem repúdio. Não ofereço abrigo na minha (pseudo) tranqüilidade nem nojo no meu (inexistente?) escárnio. Não possuo a beleza e a simpatia que me são cobradas, nem o apodrecimento inundado de sinceridade...

Nem isso, nem aquilo. Nem tudo, nem nada. Nem esse, nem aquele. Nem forte, nem fraco. Nem Norte, nem Sul. Nem frio, nem calor. Nem ódio, nem amor. Nem sol, nem chuva. Nem mãe, nem puta. Nem muito, nem pouco. Nem carne, nem osso...

Nem vivo, nem morto!

...E a certeza inconsistente de que aquele pobre diabo me despertou um certo despeito (inveja, talvez)...

Tanta teorização para um fim tão cíclico...

Mas a própria teoria diz que eu deveria ter orgulho de mim mesmo, afinal, descobri minha genialidade e pratiquei filantropia. Vivas! Vivas!

“Seria engraçado, se não fosse triste...”

À dor, às lágrimas e ao (quase) desespero...


Brindemos com aquele vinho!