Abjeto
O tempo é inútil quando se trata da vida. A vida é inútil quando se trata do tempo. O pulsar da vida e o passar do tempo são tão inúteis quanto o nosso pulsar e o nosso passar. No fim das contas, somos inúteis a nós mesmos.
O amor, que logra nos preencher, é um acontecimento frágil e inconsistente; podendo, de uma hora pra outra, desintegrar-se de maneira impiedosa. A insignificância do ser humano estará sempre a manchar a beleza da afeição. Já o ódio (tão vil quanto o amor), caminha de mãos dadas com a serenidade, mostrando que tais sentimentos não são exatamente opostos como, a priori, parecem ser.
Amor e ódio não são excludentes...e, de certa forma, chegam a complementar-se. Porem, a exigüidade do homem não o permite amar nem odiar em plenitude. Pouquíssimas almas chegaram (ou chegarão) a um verdadeiro estado de amor ou ódio. Nossa essência desventurada faz com que não possamos, efetivamente, conhecer a exaltação plena dos sentidos; muito embora, em certas circunstâncias, essa exaltação torne-se inevitável... A desventura do homem destrói os sentimentos.
Por outro lado, qualquer foco de amabilidade tende a um desfecho repentino e indesejado. Isto é, o belo e o poético sempre antecederão a tragédia. Bem por isso, o amor é fatídico. Entregar-se ao amor é assumir para si uma excessiva periculosidade. Como conseqüência, dor...
A dor, tão dolorosamente transcrita nas linhas de Vargas Vila, talvez seja a única sobra sentimental a qual possamos desfrutar nessa vida fugaz.
A dor, inelutável e necessária, engrandece-nos o espírito. Para Vargas Vila, esse é o segredo da arte: a dor. O dever do artista é apenas retratá-la. Seja através da poesia, da música, da pintura ou do teatro...A vida cria a dor, a dor cria a arte, a arte recria a vida. Banhar-se na dor para enfatizar o que há de belo: eis o papel da arte e do artista...eis o caminho trilhado pela obra de Vargas Vila.
(Marcílio Casé)
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