Risco do infinito
“Suponhamos
que o tempo seja um círculo fechado sobre si mesmo. O mundo se repete, de forma
precisa, infinitamente.
Na
maior parte dos casos, as pessoas não sabem que voltarão a viver suas vidas.
Comerciantes não sabem que farão o mesmo negócio várias vezes. Políticos não
sabem que gritarão da mesma tribuna um número infinito de vezes nos ciclos do
tempo. Pais e mães conservam na memória a primeira risada de seu filho como se
nunca mais fossem ouvi-la.
[...] Como os
lojistas podem saber que cada suéter feito à mão, cada lenço bordado, cada doce
de chocolate, cada bússola e cada relógio voltarão às suas prateleiras? Ao cair
da tarde, os lojistas vão para casa encontrar suas famílias, ou beber cerveja
nas tavernas, conversar alegremente com amigos nas galerias arqueadas,
acariciando cada momento como um tesouro do qual tivessem posse apenas
temporária. Como podem saber que nada é temporário, que tudo vai acontecer de
novo? Tanto quanto uma formiga caminhando pela borda circular de um candelabro
de cristal sabe que voltará ao ponto de partida.
[...]
No mundo em que o tempo é um círculo, cada aperto de mão, cada beijo, cada
nascimento, cada palavra serão precisamente repetidos. Também o serão todos os
momentos em que dois amigos deixarem de ser amigos, toda vez que uma família se
dividir por causa de dinheiro, toda frase maldosa em uma discussão entre
cônjuges, toda oportunidade negada por causa da inveja, toda promessa não
cumprida.
E,
assim como todas as coisas serão repetidas no futuro, todas as coisas que estão
acontecendo agora aconteceram um milhão de vezes antes. Em todas as cidades,
algumas poucas pessoas, em seus sonhos, estão vagamente cientes de que tudo
ocorreu no passado. Estas são as pessoas com vidas infelizes e elas sentem que
todos os seus julgamentos injustos e ações incorretas e má sorte aconteceram no
giro anterior do tempo. Nas profundezas da noite, esses desgraçados lutam com
os lençóis, sem conseguir descansar, atordoados por saber que não podem mudar
uma única ação, um único gesto. Seus erros serão rigorosamente repetidos nesta
vida como o foram na anterior. E são essas pessoas duplamente infelizes que dão
o único sinal de que o tempo é um círculo. Pois em cada cidade, tarde da noite,
seus lamentos ecoam nas ruas e nas sacadas vazias.”
(Alan Lightman)



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